
A estimativa de datas em que se baseia nosso calendário foi feita, durante a Idade Média, por um monge chamado Dionysius Exiguus e, segundo a Enciclopédia Católica, ao fixar o ano 1 de nossa era em 753 A.U.C. ("depois da fundação de Roma"), padre Dionysius errou nas contas por cerca de 4 anos. Assim, não seria surpresa se 1997 já fosse, na verdade, o ano 2.000 "depois do nascimento de Cristo".
Dionysius também não se deu ao trabalho de fixar um ano zero; ele apenas chamou o ano 752 A.U.C. de ano 1 antes de Cristo, e o 753 de ano 1 AD ("Anno Domini", ou "Ano do Senhor"). É por isso que décadas e séculos começam em anos terminados em "1", e não nos anos terminados em "0". Claro, ninguém pensou em adiantar as festividades por causa do erro nas contas do monge, mas os profetas de catástrofe e fim-do-mundo talvez estejam atentos ao fato.
A raiz do catastrofismo associado aos anos com muitos "00" está, aparentemente, no Apocalipse de São João - que, além de falar em estrelas cadentes, também afirma que a vinda de Jesus ao mundo prenderia Satanás no Inferno por "mil anos". Depois, o tinhoso seria solto e o mundo acabaria.
Calendários
Embora tenha dividido a história do Ocidente em duas eras distintas - antes e depois de Cristo - o monge Dyonisius não fez uma reforma do calendário. A Era Cristã continuou usando a mesma fórmula de divisão e cálculo de dias e meses fixada, em 44 aC, pelo ditador romano Júlio César. Ou quase. Quando César subiu ao poder, com um mandato de 10 anos, em 46 aC, o calendário adotado pelos romanos há pelos menos trezentos anos já acumulava uma série de defasagens. Isso aconteceu porque os romanos, para compensar os anos bissextos, encaixavam, depois de fevereiro, um mês de duração variável, chamado intercalaris - mês que, por uma série de razões políticas e religiosas, às vezes era observado, às vezes não.
Depois de três séculos de senadores e sacerdotes dando "jeitinhos" no mês, por volta de 46 aC a primavera romana já estava começando em novembro. Auxiliado por astrólogos, César resolveu consertar a bagunça. Para começar, decidiu que 46 teria 90 dias a mais, criando um ano excepcional, de 446 dias, numa tentativa de pôr as estações em sincronia. César eliminou intercalaris, e adicionou os dias do mês móvel aos outros meses fixos. Para igualar o ano romano (de 355 dias) ao ano solar (de 365 dias e 6 horas, segundo os astrólogos da época), César adicionou dias a outros meses, e criou o ano bissexto - onde fevereiro teria 30 dias, em vez de 29 - a cada 4 anos. Isso foi necessário para eliminar a "sobra" de 6 horas do ano solar. Em 44 aC, César foi declarado ditador vitalício e, pouco depois, assassinado.
O mês de quintilis foi renomeado "julius" ("julho") em homenagem ao ditador morto. Tudo teria funcionado muito bem se os sacerdotes, interpretando incorretamente as determinações de César, não tivessem resolvido criar um ano bissexto a cada três, em vez de a cada quatro, começando, novamente, a acumular distorções.
Quanto a fevereiro - este mês teve um de seus 29 dias "roubado" pelo imperador Otávio Augusto que, ao transformar o mês de sextilis em augustus ("agosto"), resolveu fazê-lo com 31 dias. Augusto também retornou ao princípio de um ano bissexto a cada quatro. Essa medida teria mantido as coisas em ordem, se o ano solar durasse exatamente 365 dias e 6 horas. No entanto, a verdadeira duração do ano solar é 365 dias, 5 horas e 49 minutos, aproximadamente - e, ao longo dos séculos, esses 11 minutos extras começariam a fazer diferença.